ao longe o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim."
Cecília Meireles
E aqui estou, cantando.Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.Pois aqui estou, cantando.Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
Cecília Meireles
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence
Cecília Meireles