Meus Olhos

" As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos."
*Rubem Alves*

Olhares Diversos

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18 de mar. de 2011

"Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando, 
por desfolhar-me é que não tenho fim."

Cecília Meireles

16 de fev. de 2011

"Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade -
 a melhor parte de mim."

Cecília Meireles

23 de nov. de 2010

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...


Cecília Meireles

8 de nov. de 2010

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

2 de nov. de 2010

Serenata

" ... Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo ... "

Cecília Meireles

29 de out. de 2010

Suspiro

Pelo arco-íris tenho andado.
Mas de longe, e sem vertigens.
E assim pude abraçar nuvens,
para amá-las e perdê-las.

Foi meu professor um pássaro,
dono de arco-íris e nuvens,
que dizia com as asas,
em direção às estrelas... 

Cecília Meireles

23 de out. de 2010

4° Motivo Da Rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

21 de out. de 2010

Traze-me

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!


Cecília Meireles

19 de out. de 2010

Meu Sonho

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

Cecília Meireles

23 de set. de 2010

O Amor

"O Amor...
É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,é para poucos!"

Cecília Meireles

19 de set. de 2010

"Que procuras? Tudo. 
Que desejas? Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, 
mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão."
Cecília Meireles

3 de set. de 2010

O Tempo No Jardim

Nestes jardins - há vinte anos - andaram os nossos
muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nesses lagos.

Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.

E assim nos separamos, suspirando dias futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos.

E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo. 

Cecília Meireles

31 de ago. de 2010

Citando Cecília Meireles

"Do lado da terra, ouve-se o abafado planger da fonte, em sua bacia de pedra. Os insetos zunem, estalam, ciciam: há uma teia de músicas a estender-se na sombra. Do lado do mar, uma solidão imensa, e o luar nas águas. Há uma angústa de perfumes, uma excitação romântica, uma sensação de ternura e fatalidade, como se esta noite fossemos todos morrer de amor."

Cecília Meireles

28 de ago. de 2010

A luz das velas insinua-se com muita suavidade pelo desenho dos lábios, pela curva das narinas, passa pelas pestanas, fio a fio, para, enfim, descansar nos olhos, pequenos mares convexos, líquidos e móveis como se fossem mesmo um aglomerado de lágrimas. E avista-se o horizonte das almas.
 
Cecília Meireles

24 de ago. de 2010

Discurso

E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

 Cecília Meireles

23 de ago. de 2010

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também

 
Cecília Meireles

21 de ago. de 2010

É Preciso Não Esquecer Nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence
 

 Cecília Meireles 

20 de ago. de 2010

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem 
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me 
em cinzas efêmera:
todos os dias reconstruo minha edificações,
em sonhos eternos."



Cecília Meireles